A casa ainda não era muito bem estruturada, mas era aconchegante e me permitia um sono tranqüilo durante a noite. Havia chegado do trabalho. Deixei os sapatos na porta, ao entrar, como de costume. Liguei o som – durante muito tempo era “Essa boneca tem manual” – ascendi um insenso de sândalo. Tirei a roupa e entrei num banho quente e demorado. Ainda posso sentir a água batendo no meu corpo enquanto observava os azulejos impecavelmente limpos. Estava feliz por estar ali. Meu canto. Minha casa. Sozinha. E me sentia bem por estar ali e sozinha.
Ao sair do banho me enxuguei e permaneci nua. Sempre gostei de ficar nua em casa. Era hábito desde a minha avó. Comi torradas “levemente doces”, adocicando mais com geléia de morango, acompanhadas de suco de uva. Comia assistindo à TV preta e branca de cinco polegadas. Uma rotina aparentemente boba...
É a satisfação desse dia que resgato para o meu agora, para a minha nova casa, para o meu estar sozinha novamente.
A casa parece estranha por ser muito grande. Ainda não há o aconchego. Aos poucos vou retomando velhos hábitos. Percebo algo de muito bom: a nova casa me devolveu o sono tranqüilo, que já não havia desde a saída de minha primeira casa. Então, por hora, permaneço longe até o momento de dormir.