21 de nov de 2012

Daniela


Sempre nos olhávamos. Cada uma numa ponta da sala. Inesperadamente, nossos olhares se cruzavam. Era o mesmo olhar. Um carinho, um afago, um “eu sei o que você está sentindo”. Cada troca de olhares era um abraço: “Força pra você!”. Depois de algumas semanas, alguns cumprimentos, conversamos. Foi nosso desabafo. Falamos de nossos bebês, de seus problemas, de nossas técnicas de enfermagem preferidas, das neos, da arrumação do berçario, dos procedimentos...E até comemos juntas. (Comer, para uma mãe de U.T.I, não é uma coisa banal, como qualquer outra pessoa faz. É abrir mão de minutos com seu filho, é se permitir um momento de 'lazer', de abstrair um pouco). Era uma intimidade intrisseca àquele lugar, onde nos encontravamos todos os dias. Seu filho nasceu prematuro. Ela já sabia que passaria alguns meses nessa rotina. Ele não tinha nome. Poderia ser Amanda, mas também não tinha sexo. Além das cardiopatias, seus órgãos sexuais não se desenvolveram e foi necessário fazer um exame específico para descobrir o sexo do bebê. O resultado sairia em um mês. Uma vez, escutei a neonatologista falar pra ela: mãe, seu bebê não está bem, o quadro continua grave. Pediu para evitar toca-lo... Foi muito triste pra mim receber a noticia de que o bebê “tinha ido a óbito”. Senti muito não poder estar com ela, não poder abraça-la... Todos já sabiamos o que ia acontecer... Mas eu queria ter podido confortá-la de alguma forma. Ás vezes, ela me vem em pensamento e tento retribuir emanando carinho, para que ela esteja bem, guardando a saudade de seu anjo, fortalecendo seu amor de mãe e seguindo em frente...

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